

Não vai dar certo!
Luiz Marins
Éramos todos animados. Combinávamos todos os detalhes da operação. Nada
poderia dar errado. Já antevíamos o sucesso e antecipadamente comemorávamos.
Até que ele apareceu.
Com seu olhar taciturno, com sua voz rouca e cavernosa, com as mãos nos
bolsos como de costume, passos miúdos e silentes, ele chegou, ouviu os
relatos com seus ouvidos incrédulos, tirou as mãos dos bolsos, tomou os
planos, leu-os com displicente superioridade e vaticinou: NÃO VAI DAR CERTO!
Foi um balde d'água fria em nossos ânimos confiantes. Perguntamos a ele,
qual a razão de tanto pessimismo e ele vaticinou novamente com Júpiter: VAI
CHOVER.
Ficamos loucos da vida. Perguntamos como ele poderia saber, com tanta
antecedência as condições meteorológicas do local do evento. E ele, de baixo
(sic) de seu astral negro e agourento pontificou: QUANDO AS COISAS SÃO
PROGRAMADAS PARA SEREM FEITAS AO AR LIVRE, SEMPRE CHOVE NA HORA...
Ficamos atônitos diante dos vaticínios e pontificações do nosso amigo (sic).
Decidimos nos precaver contra as intempéries. Telefonamos para uma empresa
de aluguel de coberturas plásticas e tivemos a garantia de colocação no
local, de uma boa cobertura alaranjada que até daria um aspecto mais
refinado ao dito evento.
O nosso amigo (sic) que havia deixado a sala para ir ao banheiro, pois que
havia sido acometido de uma pequena intoxicação alimentar por conta de um
quarto de leitoa que um subalterno lhe havia agraciado, voltou. Contamos a
ele sobre a cobertura. Pronto. Estava tudo resolvido. São Pedro não poderia
mais nos fazer fracassar.
E quando esperávamos dele um sorriso, uma aprovação, um gesto de mínimo
otimismo, eis que ele nos pergunta: "QUAL A FIRMA QUE FARÁ A COBERTURA?". Ao
respondermos ele emendou: "... SE VENTAR, CAI TUDO NO MEIO DO EVENTO. EU NÃO
FARIA COM ESSA FIRMA...". Argumentamos, sôfregos, que era a única empresa na
cidade com capacitação para essa tarefa. Um dos membros do grupo afirmou ter
participado de um casamento onde uma cobertura similar, pela mesma empresa,
teve ótimo desempenho. E o nosso amigo (sic) virando as costas para o grupo,
deu um olhar de semi-riso e disse: "DEPOIS NÃO DIGAM QUE EU NÃO AVISEI". E
saiu.
O grupo, já contaminado pela dúvida, pela incerteza, teve um momento de
profundo silêncio. Afinal ele poderia ter razão. E se a cobertura caísse em
meio às festividades. Seria um vexame. Um membro do grupo, mais pragmático,
tomou o telefone e ligou para o Serviço Nacional de Meteorologia inquirindo
sobre o tempo. Recebeu como resposta uma sonora gargalhada do funcionário
que explicou, pacientemente, que não há (pelo menos ainda) como se prever o
tempo com 90 dias de antecedência... A obviedade da resposta caiu como
iceberg no grupo que já começou a imaginar até ferimentos graves e mortes de
indefesos infantes em meio a uma violenta tempestade de ventania na hora
exata do dito vento. O clima era de completo desalento entre os partícipes
do ex-animado grupo.
O pessimismo, o mau agouro, a incerteza, a negatividade venceram. A festa
foi cancelada. O nosso amigo (sic) saiu vitorioso com o seu nihilismo de
subversão ao fazer.
O que me impressiona é o número de pessoas negadoras e que só conseguem ver
o beco-sem-saída do fracasso, da perseguição, da desconfiança, que só
conseguem vislumbrar as nuvens negras das tempestades destruidoras no
horizonte.
E o mais interessante é que condicionados por essa carga extremamente
negativa, esses infelizes são verdadeiros imãs que atraem para si toda a
sorte de desgraças e infortúnios. Só pensam nas falências e recessões da
economia, e não caminham contra a luz, pois desconfiam da própria sombra.
Pessoas assim deveriam ser interditadas ao convívio das pessoas sadias. Elas
infundem o medo, a insegurança, o temor pelo fazer. Elas trazem a tristeza,
espantam o bom-humor, murcham as esperanças e quebram a boa-fé.
O pior, no entanto, é que elas se auto-denominam "realistas". E ainda pior é
que têm razão, pois a sua "realidade" é realmente negra e turbulenta como as
asas da graúna. Nos seus eventos, realmente chove. Nas suas festas a comida
intoxica os convidados. Perdem uma safra com o excesso de chuva e a seguinte
pela seca das caatingas. A vida para essas pessoas é um peso insuportável e
por isso cometem o maior dos pecados que é o crônico mau humor. Espalham a
cizânia, semeiam a dissenção e se recolhem à noite, amedrontados com o dia
seguinte, que, com certeza, trará ainda mais desgraças.



