

37 não é Febre
“Nada mais comum do que julgar mal as coisas.” (Cícero)
“Filha, leve um agasalho, pois vai esfriar”. “Querido, lembre-se de seu
guarda-chuva; parece que vai chover...”. “Não vá tomar gelado!”.
Quem de nós já ouviu uma destas frases dos pais? E, aos que agora também são
pais, quem não as pronunciou aos seus filhos?
Somos o legado social de uma cultura que venera a super proteção e tem
a versão ao risco, por menor que ele seja, por mais saudável que ele possa
vir a ser. A ordem é construir um muro ao redor de nosso mundo privado,
encasular-se e defender as zonas de conforto arduamente conquistadas. Deste
estado de coisas advêm duas conseqüências imediatas.
A primeira delas é o estímulo à mediocridade. E, ao contrário do que o senso
comum tem por hábito avaliar, ser medíocre não significa ser inferior, mas
tão somente mediano. Representa ser modesto, inexpressivo, ordinário. Fazer
apenas o mínimo necessário para seguir adiante. Assim são as pessoas
medíocres: não se destacam e não chegam a fazer a menor diferença.
Temos o aluno medíocre, desinteressado em aprender, em conhecer, em saber.
Limita-se a marcar presença nas aulas e a estudar nas vésperas das provas
decorando fórmulas matemáticas ou definições de conceitos. Recebe nota
cinco, numa escala de zero a dez, digna para fazê-lo passar de ano. Vai
engordar a massa de operários na vida profissional, seja apertando parafusos
ou preenchendo relatórios. E, assim, vai passar pela vida, sem deixar
lembrança, legado ou marca.
Temos os cônjuges medíocres, inábeis para manter acesa a chama de um
relacionamento e ainda mais incapazes para romper o que já acabou. Passam a
vida achando que colocar alimento na mesa, fazer sexo de vez em quando e
dizer protocolarmente “eu te amo”, sem mirar os olhos, são atitudes
suficientes. Alternam almoços insípidos aos domingos na casa dos sogros,
trocam abraços sem calor nas noites de Natal, tudo para manter a
estabilidade familiar.
Temos os profissionais medíocres, com inteligência bastante para ler as
horas no relógio, batendo cartão ou assinando o ponto nos horários
determinados. Respondem metodicamente seus e-mails, falam parcimoniosamente
ao telefone, fazem exatamente aquilo que deles se espera. Nem mais, que
possa gerar desconfiança em seus pares, nem menos, que possa comprometer sua
sólida posição no organograma. São limitados como o cargo que exercem, como
os executivos que o contrataram, como a empresa na qual trabalham. Limitados
e sem futuro. Ou, se preferirem, com o futuro limitado ao horizonte de um
palmo.
Nesta toada, há mediocridade por todos os lados. Nos pais que não desviam o
olhar da telenovela ou do jornal quando têm a atenção solicitada pelos
filhos pequenos, nos amigos que nos procuram apenas quando necessitam de
algum favor, nos padres que recomendam um punhado de orações para salvar a
alma dos fiéis quando deveriam ouvir-lhes o coração e lhes abrandarem as
angústias.
A segunda conseqüência é a presunção da verdade, uma autêntica mania de
extrair conclusões, às vezes obtusas, a partir de informações parciais ou
carentes de fidedignidade, criando o que Richard Carlson chamou de
“bola-de-neve mental”.
Às vezes você está preso num engarrafamento, atrasado para um encontro, e
uma sensação terrível começa a tomar conta de seu pensamento. Você imagina
que seu compromisso fracassará em razão de seu atraso. Conclui que será
julgado indolente e irresponsável. A impaciência domina seus sentidos. Seus
batimentos aceleram, as pupilas dilatam, a música no rádio torna-se barulho,
você tem vontade de avançar com seu carro sobre os que estão à sua frente.
Finalmente, após todo o stress a que se submeteu, você chega ao destino e
descobre que ainda há pessoas igualmente atrasadas.
O hábito de cultivar as bolas-de-neve mentais é fonte não apenas de stress,
mas também de insegurança, conflito e desamor.
Nem tudo é como aparenta ser. Um termômetro que marca 37 graus não
necessariamente indica ocorrência de febre. Da mesma forma que um erro
corporativo pode não ser motivo para uma demissão, um telefonema suspeito
pode não ser suficiente para perpetrar uma separação, um ponto de vista
discordante não deve macular uma amizade.
Somos essencialmente passionais, mesmo aqueles que se dizem movidos pela
razão. Por isso, deve-se evitar reagir a determinados eventos antes de 24
horas. É claro que há momentos em que a temperatura sobe. Afinal, as razões
do coração turvam-nos a mente e levam-nos a decisões das quais podemos nos
arrepender na manhã seguinte. Porém, entre um dia e outro, com uma noite de
descanso no meio, o que se mostrou um problema irresoluto surgirá não menor,
mas com dimensões reduzidas à sua realidade.
(tom Coelho)



