

Gente do Bem
Em meio ao trânsito desordenado, um motorista gentilmente cede-me passagem.
Visito um ex-professor na faculdade que prazerosamente percorre toda a
instituição mostrando-me a evolução da infra-estrutura local e as melhorias
implementadas na qualidade do ensino. Apresento um cliente a um gerente de
banco que imediatamente toma providências no sentido de atender às suas
necessidades. Recebo um breve telefonema de um amigo com quem não falava há
tempos apenas para saudar lembranças.
Cenas aparentemente fúteis, talvez até desprovidas de motivação para serem
memorizadas. Porém, cenas capazes de colorir com satisfação e gratidão um
dia como outro qualquer. Dizem que Deus está nos detalhes. Nós é que não
percebemos... Como tudo na vida, estamos sujeitos a situações opostas às que
acabo de relatar.
De um motorista que quase provoca um acidente para evitar ser ultrapassado a
profissionais de atendimento ao público que prestam um verdadeiro desserviço
pela falta de atenção e empatia, quem já não perdeu o bom humor pela
ausência de um cumprimento matinal de um familiar, por um comentário
depreciativo ou jocoso de um colega de trabalho, por uma reprimenda pública
e desmesurada?
Quando pequenos, somos ensinados a fazer o bem. Isso pode ser traduzido por
praticar uma “boa ação” diária, coisas novamente pouco relevantes como
ajudar um idoso a atravessar a rua – essa é uma imagem emblemática para mim.
Fazer o bem em escala maior é missão para super-heróis dotados de super
poderes, aptos a salvar toda a humanidade, promovendo a justiça e combatendo
o mal.
Nossas pernas crescem e nossa imaginação encurta. Então, descobrimos que não
há super-heróis, não há super poderes, a humanidade não pode ser salva, a
justiça é utópica e o mal viceja. Por isso, desistimos de ajudar os idosos a
atravessarem a rua e deixamos de pronunciar palavras de agradecimento, apoio
e conforto aos que nos cercam. Assim, paramos de praticar o bem. E perdemos
a capacidade de enxergá-lo.
A vida, tomada racionalmente, não é fácil para a maioria das pessoas. Quando
se tem saúde, não se tem trabalho. Quando se tem trabalho, não se ganha o
suficiente. Quando se ganha o suficiente, não se tem reconhecimento. Quando
se tem reconhecimento, não se tem paixão. Quando se tem paixão, não se
encontra o amor. Quando se encontra o amor, falta a saúde...
Cada um de nós tem uma missão a cumprir. E cada missão vem embalada em um
fardo que não é nem grande, nem pequeno, mas na medida exata do que podemos
suportar. Uns têm fardos maiores que outros. Alguns enfrentam adversidades
mais contundentes. Mas todos têm limitações.
Se os super-heróis do bem nos parecem tão figurativos, as personagens do mal
materializam-se, ganhando carne e osso e uma habilidade ímpar em nos
assediar. É neste momento que temos que buscar o que temos de melhor, não
com base na sorte ou em fatores externos, mas em nossa força interior. E
direcionar este potencial para o caminho do bem.
Shakespeare dizia que “o mal que os homens fazem vive depois deles enquanto
o bem é quase sempre enterrado com seus ossos”. Costumo pontuar que é muito
importante tomar cuidado com as palavras. Quando você diz algo que desagrada
a alguém, pouca valia haverá em se desculpar a posteriori. Porque não
importa o que você disse, mas importa o que ficou depois do que você disse.
Fazer o bem faz bem. O bem despretensioso, genuíno, sem paga. É caminhada
que não desgasta os sapatos, subida que não cansa. É fonte de prazer e de
alegria.
( Tom Coelho)



